28 Abril, 2008

Vinícius e Deus


A arte que reconhece a Deus não é privilégio dos "escolhidos".

E Deus queira- e Ele há de querer- que não seja: para que

tais nunca possam ter a sua presunção de exclusividade

confirmada.


Porque Dele e por Ele são todas as coisas,

inclusive a poesia.


Tu estás lá

E tu estás em todos os lugares

E ouço a tua voz na música do mundo

E sinto a tua mão na plástica das coisas

Tu és o ponto de partida

Tu és o caminho
E és o fim do caminho

És o cardo que fere os pés

E a grama macia que os repousa

E a grande tempestade de vento

E o ar parado que sereniza.

És o pranto dos olhos

E o riso da boca

És o sofrimento do mundo

Numa promessa de eterna felicidade

És Deus

Deus que vê todas as coisas e a todas dá remédio

E que é o único perdão:

Amém.

(Vinícius de Moraes)

17 Abril, 2008

Vivendo e aprendendo


Ricardo Gondim

Cada dia dou mais razão a Jesus de Nazaré.
Aprendi que, quem repete suas preces numa ladainha infindável não conhece a Deus como Pai;


quem faz propaganda da piedade, narra jejuns e se compara com pecadores “piores” não é considerado no céu;quem oferta qualquer coisa para que a mão esquerda saiba o que fez a direita é falso;


quem se especializa em questiúnculas religiosas não dá bolas para o principal: misericórdia e justiça; quem aparenta exageradamente justo não passa de sepulcro caiado;


quem prioriza a verticalidade do culto esquece a horizontal e passa ao largo dos moribundos - este não herdará a vida eterna;


quem gosta dos lugares de honra vive em trevas e sempre chega por último;


quem promete fogo do inferno para a laia samaritana não tem o Espírito de Deus;

Cada dia fico mais suspeitoso das pessoas.

Não acredito em quem repete: “Deus sabe das intenções do meu coração”.

Não dependo de quem afirma: “Pode sempre contar comigo”.

Não me ajoelho ao lado de quem gosta do provérbio: “Em terra de sapo, de cócoras com ele”. Não é melhor continuar em pé?

Não ouço coisa alguma de quem precisa validar o discurso com um cínico: “Deus mandou dizer que...”.

Não aceito o consolo de quem prega: “Em terra de cego, quem tem um olho é rei.” – imagino que ele queira furar meu olho.

Não confio em quem diz: “Você acha que estou mentindo...?”. – Hum, acho que sim.

Não aposto na História Oficial – Cadê a versão dos derrotados? Perdeu-se? Por quê?

Soli Deo Gloria

10 Abril, 2008

Não aguento mais esse "não aguento mais"


Por Ed Rene Kivitz - www.outraespiritualidade.com.br

O refrão do “não agüento mais” cresce a cada dia. Pessoalmente abandonei o coral. Explico. Durante muito tempo acompanhei a caravana do reformismo. Hoje essa conversa me entedia e me aborrece. Primeiro porque não acredito mais em reformas, apenas em revoluções. Mas principalmente porque não mais acredito nisso que apontam como objeto de reforma. A expressão “igreja evangélica brasileira” está fora do meu vocabulário. Não apenas porque inexata – não existe a igreja evangélica brasileira, existem milhares de igrejas evangélicas no Brasil, mas também porque tomar a parte pelo todo é um equívoco.

O que não se agüenta mais é uma das faces da chamada igreja evangélica brasileira. Essa face da igreja evangélica brasileira (que, insisto, existe apenas como categoria sociológica) é absolutamente exógena, um corpo estranho, ao núcleo doutrinário e comunitário do que se chamou igreja evangélica brasileira. Em outras palavras, o que não se agüenta mais na igreja evangélica brasileira não tem nada a ver com qualquer coisa que se possa associar ao termo igreja evangélica, sendo na verdade uma nova versão religiosa do Cristianismo. O Cristianismo, considerado nas categorias das ciências da religião, é uma religião, com muitas expressões condicionadas histórica, social e culturalmente, dentre elas o Catolicismo romano e Protestantismo reformado. O que se convencionou chamar de igreja evangélica é o segmento do Cristianismo associado ao Protestantismo reformado. Nesse segmento surgiu um novo fenômeno tido como evangélico, mas que aos poucos começou a ser alvo dessas centenas de “não agüento mais”. O que percebo é que esse segmento alvejado pelo “não agüento mais” não é um segmento do Protestantismo reformado e, portanto, conforme historicamente consensado no movimento evangélico brasileiro, não deveria estar associado ao nome “igreja evangélica”.

Em outras palavras, no meu caso, dizer que não agüento mais isso equivale a dizer que não agüento mais o espiritismo kardecista ou o fundamentalismo islâmico. A respeito desse tal segmento da chamada igreja evangélica que inspira os “não agüento mais” eu não digo mais “não agüento mais”. Digo que é coisa que não tem nada a ver com a identidade evangélica e que, portanto, não é alvo do meu “não agüento mais”, até porque nunca jamais agüentei. Escrever mais um artigo não agüentando mais isso é o mesmo que subscrever um artigo identificando as incoerências e inconsistências dos cultos afro e dizer “não agüento mais”.
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* É....isso não me pertence mais...

07 Abril, 2008

A ERA DO GELO


“E por se multiplicar a iniqüidade, o amor de muitos esfriará.” (Mt 24.12)


As mudanças climáticas do planeta têm sido um grito de alerta para a humanidade. Enquanto o superaquecimento global traz à tona contornos apocalípticos, um fenômeno inverso me desperta à reflexão. O amor de muitos está esfriando, galopantemente.

Lembro-me que, na infância, meu sentimento em relação ao próximo era bastante diferente deste que me invade atualmente. Ao passar pelas ruas e ver as misérias ambulantes, não me continha de tanto dó. Também a época era outra. Não apenas pelo fato de eu ser criança e, sim, porque, verdadeiramente, os homens nutriam mais solidariedade. Não existia a “enchente” de iniqüidades que há no mundo de hoje. Para se ter uma idéia, a duas décadas, o número de meninas que engravidavam aos 9 anos era quase inexistente. Não se via, freqüentemente, netos matando avós, nem em noticiários, pais matando filhos indefesos e, muito menos, bebês sendo, cruelmente, molestados sexualmente. Na corrida do tempo, com a multiplicação da iniqüidade, o amor de muitos têm esfriado.

A Era do Gelo alcançou as pessoas sem que elas se apercebessem disso.

E como está o teu coração diante dessa banalização da maldade?

Satisfeito?

Passivo?

Revoltado?

Inconformado?

Perseverante no bem?

Rendido ao mal?

A tendência daqui para frente é encontrarmos corações cada vez mais petrificados pelo gelo desta era. E não te assustes se foste tomado pelo frio do desamor.

O período da glaciação chegou e não há retorno.

Se o teu interior ainda se encontra revoltado, inconformado ou perseverante perante o quadro estabelecido, é um sinal de que a chama não se extinguiu.

Portanto, fiques atento ao que se passa em tuas motivações, cultivando essa luz que te resta, no intuito de que, mediante seu queimar, outros corações que entraram em estado de congelamento sejam inflamados e, assim, escapem dessa Era do Gelo.


Edson Rodrigues,
07/04/08,
Recife/PE.