16 Outubro, 2008

“Ô Deus, o Senhor me empresta esses caras um pouquinho?”

Você já ouviu falar do programa “Astros” no SBT? Aquele que uma vez já foi Ídolos (e que fora comprado pela Record há uns meses), que depois ficou um tempo sem nome, até ser conhecido como Astros. Lembrou? Confesso: eu assisto!
Conheço algumas [muitas?] pessoas que são contrárias a esse tipo de programa, porque segundo elas, os jurados menosprezam alguns candidatos, chegando a humilha-los. Discordo dessa posição, pois ninguém vai ao programa sem conhecer seu moldes, na inocência total. É um risco ser execrado, mas inevitável a repercussão.
Bom, mas o que quero comentar não é o “mérito da questão”. É justamente sobre a repercussão que tem aquilo que lá é apresentado. Em especial, ontem.
De uns tempos pra cá, os cantores e músicos do meio evangélico têm aparecido por lá. Um grande cantor inclusive, o Duzão, foi o vencedor do mês de agosto (ele canta um Blues muito bem!). Mas no dia 15 de outubro apareceu por lá o “Artpella” – um sexteto gospel a capella. Um grupo que parecia ser tão previsível quanto outros “góspeis”[sic], mas que arrancou aplausos dos jurados ao final. Musicalmente excelentes (lembram bastante o Kades Singers), afinadíssimos, simpáticos, entrosados, criativos.Na hora da opinião do júri, o super-sincero Miranda fala o que muitos deveriam estar se questionando: “Quando vejo um pessoal fazendo musica espiritual bem assim como vocês, eu tenho vontade de pedir pra Deus que me empreste um pouco vocês para fazerem um pop para o Brasil. Independente da religião, budista, hinduísta, ou seja o que for, todo mundo deveria ouvir dessa boa música” (interpretação minha, mas é mais ou menos isso). Já Arnaldo Sacomani, afirmou com todas as letras que o Artpella é o melhor grupo que já apareceu por lá. E um detalhe: ambos foram os produtores de grandes artistas, como Tim Maia, Roupa Nova, Skank- eles têm “café no bule”.
Não tinha como não pensar no que Carlos Miranda havia acabado de dizer. Em outras palavras, ele pediu que estes grandes artistas saíssem de seu mundo gospel e mostrasse às pessoas o que sabem fazer. No cenário brasileiro, pouquíssimos artistas fazem música de boa qualidade- alguns podem ser garimpados no MySpace.
É inevitável questionar o porquê desse comportamento separatista. Parece que vivem em dois extremos: ou fecham-se para seus fãs cristãos, ou engasgam a garganta alheia. Explico.
O primeiro grupo parece temer a contaminação. Participam apenas de eventos religiosos, grandes e pequenos. Produzem seus CD’s e DVD’s para esse público restrito com as mesmas características: clichês que se reproduzem nas igrejas, vocabulário que apenas evangélicos entendem, letras parecidíssimas entre si e musicalidade óbvia. Poucos fogem à regra, existem exceções. Mas parece ser esta a regra.
O segundo grupo quer ganhar o mundo, mas quase pela força. Participam de eventos e fazem “apelo em massa”- e ainda condenam abertamente aquilo que abominam. Evocam seu público a tomar posse e a balançar o inferno. Animam a torcida, e o Espírito é livre para se expressar. O volume é alto, a musicalidade massificada.
Infelizmente, a grande maioria dos cristãos é desaconselhada a apreciar boa música, poesia, teatro que não sejam cristãos. Essa elitização-cristã da arte faz muitos tolerarem um mesmo padrão, um mesmo nível. Sem rivalidades, principalmente mercadológicas, qualidade é sempre apreciável. Será que este comportamento com a cultura brasileira não causa alienação?
As vezes, tenho a impressão de que os cristãos evangélicos entenderam errado quando Jesus disse para ser sal da terra e luz do mundo. A vontade de “ser para Deus” é tanta que os grupos tornaram-se salinas e usinas elétricas, que não se dissipam, nem se misturam. Em alguns lugares, apenas trazem certo incômodo.
Bom, mas quem sabe Deus empresta alguns artistas para o Brasil?
É esperar pra ver.


Naquele que é O Artista da Vida,

Angela

1 comentários:

MamaNunes disse...

Éee Daniel... Eu também assisto o "Astros". Sou cantora e ja trabalhei muito com o Tomas e o Arnaldo. Reconheço a mediocridade do programa do SBT, mas confio na capacidade, principalmente do Tomas que é um "craque" da música, criador de jingles maravilhosos que cantamos juntos (Coca-Cola, Nestlé...). Confesso que fico ffelicisssssssssiiiiima quando os "crentes" dão o ar da graça (literalmente) Ô moçada competente. Oro para que eles saiam dos seus cantinhos(instituições) e venham salgar nossa terra. Em nome de Jesus, amém!!!
beijos mano!!!!!