18 Fevereiro, 2008

Esquina

Também por Ricardo Gondim - alguém cujas idéias suscitam questionamentos.

Videntes, profetas, heróis, magos e sacerdotes conseguiram solucionar enigmas, burlar paradoxos divinos, ler sinais nas estrelas, fazer escolhas jogando sorte. Eu não alcanço nenhuma proeza semelhante. Tentei conciliar o desenrolar da história com os meus pressupostos conceituais (teológicos e filosóficos) e acabei como o mendigo que não sabe o que fazer com o cobertor curto – quando cobre a cabeça, congela os pés e quando puxa para baixo, bate o queixo de frio.
Não consigo atenuar minha aflição com a história. Tentei contar apenas os negros degredados para as Américas; quando cheguei nos milhões, desisti. Sequer encontrei argumentos em minhas hipóteses intuitivas e argumentações metafóricas para as hecatombes que marcaram a marcha do “progresso da humanidade". Os massacres do século XX, que dizimaram armênios, russos, poloneses, judeus, homossexuais, testemunhas-de-jeová e ainda ontem, os tútsis ruandeses, são exagerados. A gratuidade do mal não tem explicação.
Não pretendo articular um discurso ou uma doutrina que responda a tudo. Pretendo simplesmente encontrar um jeito de viver a fé diante do sofrimento descomedido que persiste em dois terços da humanidade. Procuro engatilhar esta geração para que pergunte: “Por que o continente africano foi condenado à miséria?”. “A degradação ambiental vai durar até quando?”. “Não vai surgir nenhum poder que regule as relações comerciais assimétricas que privilegiam os impérios enquanto geram pobreza em nações inteiras?”.
Mas eu mesmo me pergunto. Será que alguém pode me ajudar a ler os sinais? Preciso conscientizar-me de que o sol dos tempos já escurece. Os exilados de Darfur, os idosos das megalópoles, os empobrecidos continentais da África, América Latina, Ásia e Oriente Médio, não aguentam esperar pela luz no fim do túnel. No fracasso das ideologias, na ressaca da contra-cultura, no ocidente pós-cristão, o que fazer?
Quero saber, tão somente, se ainda existem ideais que motivem a minha geração a peitar os poderes deste mundo. As forças da maldade continuarão se articulando, gananciosas e mascaradas de humanismo, enquanto muitos se refastelam no banquete do materialismo? Até quando milhões de mulheres continuarão a espremer o peito querendo arrancar uma última gota de leite que pode salvar o filho?
Desisti dos eufemismos que suavizam a percepção de que esta vida se tornou uma tragédia. Já não procuro confeitar as inquietações dos meus olhos com colírios dogmáticos. Se nasci nos porões do Coliseu, ainda não me acostumei com o espetáculo da arena. Se aprendi que tudo foi providencialmente pensado, programado e criado por Deus para se desenrolar como ele queria, procuro outra explicação. Não concebo mais que Deus possa se associar com o ímpio para que todos os eventos históricos se transformem em elos de uma corrente que, lá no fim da história, lhe trará glória.
Respeito os que explicam a colossal desgraça humana com o pecado de Adão - não há como questionar a exegese, a hermenêutica ou a fé dos outros. Entendo o argumento dos niilistas ateus que preferem sepultar o restinho de beleza da humanidade e não explicar porque sofrem os justos – cada um concebe o inferno como quiser. Calo-me diante da resignação dos budistas que negam a realidade da dor – todos vivemos com diferentes níveis de negação (denial). Porém, quando tento vestir essas camisas, elas me apertam com desconforto. Portanto, desisto das meta-narrativas que sobrevivem ao colonialismo; do triunfalismo que resiste em ser enterrado com as ideologias; do ufanismo de religiões que não percebem o ridídulo de suas intolerâncias.

Buscarei nos pequenos gestos e nos encontros despretensiosos o significado mais profundo de minhas ações. Quando leio Vítor Westhelle em “The Scandalous God” - O Deus escandaloso - (ainda sem tradução - Fortress Press, USA), repenso minha escatologia. Resignifico a expectativa do fim escatológico como futuro. Pretendo situar minha esperança não mais numa periferia remota do tempo, mas nas margens, ou confins, geográficos e existenciais.
Para Westhelle, todos os que habitam nesses “confins”, se exilam dos centros – políticos, religiosos e econômicos”. Ele oferece, e eu aceito, uma nova percepção para o Apocalipse. Devemos esperar a manifestação gloriosa de Deus não só no tempo, mas, e principalmente, em lugares e em pessoas onde a epifania – a manifestação total de Deus – não pode sequer ser imaginada. Os desvalidos, as perfiferias pobres, passam a ser lugares privilegiados, onde o “apocalipse se torna real” porque Cristo se faz presente, se manifesta.
A volta de Cristo deixa de ser mais uma utopia porque não há mais um dia futuro em que ele se tornará presente (presença, do latim prae-esse, com o significado preciso para parousia). Jesus advertiu para que não se especule sobre o rompimento da radical ausência divina (do latim ab-esse e no grego apousia, que não pode ser restrita a um sentido cronológico). “Se disserem onde e quando ele vem, não creiam, pois ele vem na estranha imagem de um ladrão à noite (Mateus 24.43). E ele veio como o ladrão executado na mesma cruz; e que carecia de esperança no meio de um dia que virou noite (Marcos 15.33)”. Jesus já está entre nós e ele já pode ser visto; não num relâmpago, mas no rosto de gente pobre, carente, sofredora e indefesa como o ladrão declarado cidadão do paraíso. Assim, meu horizonte utópico permanece como esperança, mas o dia a dia se anima com pequenas ações: dar de comer a quem tem fome, abraçar os que precisam de afeto, advogar a causa dos indefesos e curar os feridos de alma; eles expressam o rosto do Deus sofredor.
Em algum tempo, não sei precisar quando, abandonei o antigo prédio onde organizava idéias – um edifício calafetado, atapetado e seguro. Agora me vejo numa esquina fria, sem saber direito para que lado deva dobrar. Mesmo assim, prefiro esta insegurança, àquela masmorra.

Soli Deo Gloria.

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